Domingo, Julho 12, 2009
Sábado, Julho 04, 2009
Sexta-feira, Julho 03, 2009
Terça-feira, Junho 30, 2009
Segunda-feira, Junho 29, 2009
Domingo, Junho 28, 2009
Sexta-feira, Junho 26, 2009
Quinta-feira, Junho 25, 2009
Quarta-feira, Junho 24, 2009
Terça-feira, Junho 23, 2009
Segunda-feira, Junho 22, 2009
Quarta-feira, Junho 17, 2009
Terça-feira, Junho 16, 2009
Azul Líquido
Sexta-feira, Junho 05, 2009
Sábado, Maio 16, 2009
Storyboard

Lehgau-Z QarvalhoCinco e meia da tarde. A cidade dourada. Luzes de outono. Um tempo sem escrever. Um mês. A sensação a retornar. Um lapso apenas. Um flash. Mais que um flash; uma luz de geladeira. Trânsito interno acelerado. Por fora: torpor. Sensação de agradável desconforto. Uma coisa meio de estar a enlouquecer; e a temer e a querer. Na cidade dourada tudo é sentimento. As imagens passam em filme Super-8. Agora em dezesseis milímetros. Quase o trinta e cinco de outrora. Dizem que a vida dá voltas. Isso deve significar que, de tempos em tempos, chega sempre ao mesmo ponto. Triste e bom a um só tempo. Não ir adiante; mas aplacar saudades. E outras coisas. Olhando para o alto; os prédios são como imensas barras de ouro. A cidade ensaia ter valor. A cada olhar um quadro. Horizontes; verticais. Cores de Moebius; paisagens de Almodóvar. Tudo em quadro. Quadro a quadro. A repassar o storyboard. Os desenhos são perfeitos; até a exaustão. Virando à esquerda aqui, passando à direita acolá; um trânsito maciço; de uma sexta-feira qualquer. Um homem pensando em uma mulher.
Sexta-feira, Abril 17, 2009
Terça-feira, Março 17, 2009
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009
As intermitências do norte
Escolhiam-se dentre todos outra vez. E a cada vez. Eram-se novos. Recentes. Amantes à primeira vista intermitentes. Apalpavam-se. Deglutiam-se. Drogaditavam-se de dois em apenas um que era duplo de si em formato único porém desmembrável em outro um. E prometiam-se. Atomizavam-se. Rezavam-se para nunca mais terminarem-se. Desmontarem-se um do outro. Descolarem-se. Desacoplarem-se. Cederem às suas inquietações, ambições, (des)realizações onde não cabiam, ou um, ou outro; os dois.
Queriam-se, desejavam seguir se tendo.
Até um amanhecer de beira de praia. Amanheceres de ilhas à luz de luas marcianas. Luas persianas. Sentiam que podiam ir além. Contra tudo, todos e quem mais aparecesse. Eram nus, unidos feito gregos e troianos. Feito dias horas minutos segundos; em anos. Eram, a uma só tempo, aristotélicos e platônicos. Eram duas dimensões e eram cônicos. Eram a noite e seu final. Do falsificado e do original. Eram em um, em dois, em três, em quatro, em cinco. Eram a criança, o ancião, o paralítico, o criminoso supliciado e o defunto. Eram todas as parábolas, apologias, lendas, histórias, chistes, alegorias; deuses e medusas. Eram o poeta e suas musas. Todas as unidades e suas dúzias. Eram a si e seus budas; a possibilidade e seu incremento.
Eram, os dois, só, esse mo(vi)mento.
Domingo, Fevereiro 08, 2009
...
Hassan crê, ou se diverte com a idéia de crer. Turib lê, e se desentende a cada página consumida. Virágora ama, e se desintegra a cada beijo, roçar ou mordida. Um deles deveria estar certo; um errado; e outro conectado.
Mas, dando prosseguimento ao ano em que tudo aconteceu de fato, desde quando fatos passaram a existir ou fazer parte do imaginário coletivo, uma canção deveria ter sido criada. Uma canção parecida, mas não quase igual a nenhuma. Nem tão diferente; nem indiferente a um arguto inferente. Nem aderente às improváveis impossíveis múltiplas possibilidades do interferente. Uma que não pudesse ser ouvida; nem tocada; nem cantada. Mas sentida. Sem sentido; indo ou vindo. Uma que viesse em ondas. Que fosse do tipo alada. Canção para voar. Atravessar. Ir aonde jamais se pôde chegar; embora já estando lá no lugar. Uma canção para germinar. E, ao florescer, mandar podar; ou deixar crescer e morrer sem se apiedar. Porque de porquês já não se poderia mais sofrer. Nem tampouco se alegrar. O tempo da canção, sem letra nem poesia, seria o de se perguntar. Mas onde isso tudo vai dar?! Um tempo paralelo; perpendicular. Tempo templo; labiríntico. Templo lúdico. E, ao final, tudo explodiria em um não sei o que de não sei bem onde. E formaria em gelo no copo dos que o precisam; molho ao prato dos imprecisos; e olho aos que na boca possuem ouvidos. Uma língua só seria mal falada; e todos trariam nadas em pequenos retalhos para que outros tantos pudessem tecer suas notas em partituras de inteiro teor que, à medida que fossem sendo compostas, na mesma hora, tempo e momento, trariam cor e também a desbota. Isso para que, nunca, nunca, jamais, fosse possível parar de não fazê-la; nem descomeça-la.
Para tanto, seria preciso um tanto quanto impreciso ouvido. Desde que o tivessem, todos dos três se fariam todo e, dentro de uma semana, um mês, não mais se teria o tempo templo ritmo batida atrito convencional, mas só vento em movimento irrestrito e muito além do monumento erigido agudo semibreve antítese tese animoso animal. Algo bem para lá do perigoso irreal. Para além do etcetera e tal.
Quinta-feira, Janeiro 15, 2009
Quiseras
Quisera eu ser eu mesmo, quando dever eu ser o que penso que sou. Quisera eu saber-me apaixonado, quando por mim pensar que passei, por fora, na rua; em sendo a rua aqui mesmo, dentro, o fora. Eu lua. Quisera eu tomar-me por mim quando o dia raiar, deixando o que noite foi para trás sem nada para lamentar. Quisera eu ser, em ti, o que deveria eu, ser, em mim buscar. Quisera eu poder em mim te perder, só para, em seguida, sorrindo, poder te me abraçar.
Terça-feira, Dezembro 02, 2008
Sábado, Novembro 22, 2008
Consoantes incidentais
Lehgau-Z Qarvalho
E não hesitava em pegar na sua xícara de café porque não conseguia deixar de pensar que não são as mãos que pegam nos objetos, mas sim os objetos que pegam nas mãos. E no resto; todo. Assim como também são as almas das pessoas perdidas que abraçam nossas vidas, e não nós que desatamos; nós.
Quando os dois se encontraram, um já estava morto; só que não sabia.
E a xícara vinha certa a aquecer-lhe as mãos e o interior dos pensamentos sentidos e dos sentimentos pensados. E vinha envolvendo-se grato e feliz por ser quem era, rodeado de interiores magníficos bem ao seu alcance, e alcançado por eles, nos mais, por vezes, absurdos lampejos; ou mesmo em um só brilhante relance. Agarrava-se à xícara feito ela a ele. Feito primeiro dia. Feito última chance.
Consoante: fonema em que a corrente de ar, emitida para a sua produção, teve de forçar passagem na boca, onde determinado movimento articulatório lhe criou embaraço; entrava no dicionário e saía no bagaço. Procurava as palavras certas, letras firmes entre vogais. Algo constante. Algo a mais.
Era o último dia. O primeiro do resto. O dia para sair da apatia. Da boca nada vinha, nada ia. Escrito pela mão não conseguia. Ou agia, ou letargia. A coragem a lhe faltar. Os anos a lhe enredar. Em rede a navegar; conhecido de dias incertos, por isso interessantes, por isso não menos extenuantes. Já vira, ainda não provara; este nu, antes.
Quando os dois então viveram, apenas um sobreviveu; sem saber ao certo quem era.
E esperava pela senha. Pela deixa. A deixa. Ah, deixa... Franzindo o cenho; respondia-se que não. E adormecia. Adormentava-se. E consumia-se. Bebia-se lento, em goles curtos. E desistia-se. Mais um pouco, só mais um pouco; meio ereto, meio louco.
Quando vem a crise, pensa-se outro. Sente-se incompleto. De si já repleto.
E quando menos espera, em trovoada se faz um céu. Atordoa-se. Lembrado pela existência; é largado pela xícara. Pela janela é olhado; e nublado pelo tempo. É fechado pela mala, vestido pelo casaco, aberto pela porta e ganho pela rua. Enquanto a calçada o caminha para longe e para sempre, sentido é pela brisa em vento. Uma luz se faz seu rosto; raio; gosto; e escorre...
em lágrima;
profundo,
tal qual açúcar sal
do sabor,
rumo
ao interior
do novo i-mundo.
Quarta-feira, Novembro 12, 2008
Um dia para lembrar de não parar de existir
Era dia de aniversário. Dia de renascer, ou apenas seguir em frente. Um dia como outro dia. Seguido de outro e outro dia. Ou um dia de sol único. Intransferível. Como todo santo dia. Um dia para se readaptar; se retransferir. Um dia para guardar onde mais se pode rir. Onde voltar também é ir. Um dia para se auto idolatrar; ou se desmentir. Um dia para lembrar de não parar de existir. Um dia de gentes e afagos. Um dia de possíveis vozes em embargos. Um dia para decidir; entre lucros e encargos; que os bons dias só acontecem em dias como outros dias. Seguidos de outros e outros. Ou em dias de sol. Únicos. Santos. Dias em que a vida nos paga o devido salário, e nos toma emprestado, para acertar outra vez as contas, com os devidos juros, sempre em dias de aniversário.
Quinta-feira, Outubro 30, 2008
Jogo de espelhos
E estranha-se em toda a superfície refletida. Qualquer superfície que o devolva a si; se encontra e já se perde em vidraças, louças, metais e espelhos. Pinturas de carro. Olha, diz por dentro, faz caretas; esmurra o ar. Só, em pensamento. Só. Chega sempre atrasado aos próprios movimentos. Esmurra a si mesmo. Só, o que consegue. Nem a si faz companhia; nem de si a tem. Um; só; tremendo.
Parte para a jornada sem volta. Só, vai. Estrito traço, por linhas tortas. Só, absorve, só. Desmente-se de si. Percorre, percorre. Só, sem sair do lugar. Já quis se ter, para consigo ser. Não quer mais guarda. Cair na estrada. Esfolar a cara. Só, cara, e mais nada. E os espelhos atrás; em frente; tornando múltiplos os caminhos. E ilusórios. Só, pergaminhos.
A cada movimento já chegou; é, antes, de si. Mas não vê. Aconteceu. E o que vem agora já foi, atrasou. Reflexo na chaleira. Bola de natal. Entende que é muito melhor não encontrar-se consigo; não ter de entender-se; pára; não ter de sentir-se. Refletir; bola. Bola. Bola de cristal. Levar a vida em um; em dois; em três, etcétera letal. Levar da vida; o mal.
Quebra o primeiro espelho. Estilhaça. Cai para dentro de si, arruaça; surte a trapaça. Avalia a situação. Arranca uma tripa com a mão. Põe na boca; mastiga; uma; passa. E segue correndo de si, para o outro lado.
Arrebenta o segundo; põe de pé; no só; pé; do mundo. Manda calar a boca. Arranca da língua a mãe; a mãe louca; à míngua; a língua; à parte; o que lhe cabe; cabe neste; late; late fundo. E se debate. Enreda em arte. Em ar. De fato. Embate. Arte; fato. E bate. Bate a cabeça. Bate. Uma; arte. Má; arte. Marte.
E junta; junta tudo. Em uma. Só. Parte.
Quarta-feira, Outubro 15, 2008
Sexta-feira, Outubro 10, 2008
Decifro-me, ou me demoro
Alguém, outro dia, me dizia que a vida é feita da mais pura utopia. Eu queria acreditar, reciclando medos em vontades extremas. Queria viver dentro de um livro, com o afeto de quem eu criava para o convívio. Queria não estar triste sem saber por quê. Queria mais é saber. Queria não ter sono para escrever. Queria dormir sem ter o que fazer. Eu queria um pouco de iogurte. Queria viajar para bem longe. Queria saber onde. Queria ser azul quando queria. E amarelo vivo em dias de entropia. Queria porque queria. Carregava a mim e mais eu para um lugar só meu. E dos outros, uma pitada; de apreensão. Queria me ajudar a ajudar a mim mesmo. Queria ser mais eu. E menos eu, eu e eu. Queria ser meio tu; mais nós. E desembrulhar o pacote das coisas que já não me faltam, e ser mais compreensivo com o que eu teria de fazer, mas não faço. Não sou pó nem aço. Nem um óleo para passar em meu peito e virar em defeito tudo aquilo que me faz mais perfeito. E por que não me deito?! Me deleito?! Eu perdi; não fui o eleito. E me conformo com isso; de não me conformar. E devia era pegar ou largar. Como quem se atira do primeiro andar, só para ver no que vai dar.
Eu estou quase sem respirar. Mas ainda imploro que me saia pelos pêlos poros. Se me faço de mim eu melhoro. Se não, não que eu choro.
Perdido de mim em ti, me calo, me melindro, me devoro.
Sábado, Outubro 04, 2008
Um crepúsculo, dois amantes; os domínios de um duplo e seus elefantes
Dois amantes encontram-se consigo mesmos ao crepúsculo, em cima de um prédio. O céu é vermelho. O silêncio: virtual. Reconhecem-se e temem-se de igual para igual. Na Índia o elefante é um animal sagrado, pensam. A deusa Maia daria à luz a um menino, que seria o imperador da Terra ou o redentor da espécie humana. Entreolham-se. O mundo é uma cabana. E entre o mundo da carne e o do espírito existe um orbe habitado por anjos e demônios; e pensamentos em palavras; mais alguns deleites. Na Índia os elefantes são animais domésticos; e os indianos os usam como enfeites. Buscam-se a si mesmos, um no outro, os amantes. Algo vibra em seus corações. Algo para além das superstições. Algo para além do depois e do antes.
Conforme o manual tibetano, o outro mundo é tão ilusório quanto este. Coabitam-se. E servem-se a si mesmos como manjares portentosos para espécies tonitruantes. Sim, os amantes. Gemem, berram, uivam; errantes.
Uma pena e um coração ocupam os pratos da balança, onde há um tribunal de divindades a espreitar toda e qualquer dança. Em pauta, das virtudes e das culpas, uma ponderação. Lá embaixo, uns vêem, outros vão.
Dois (di)amantes encontram-se consigo mesmos ao crepúsculo.
Na Índia a cor branca significa humildade e o número seis é sagrado. Nas grandes cidades, em cima dos prédios, ao crepúsculo, é possível encontrar aquele que complementa, aquele que não se é e nem se será. Aquele a quem se deve pequenas mortes; vôos macios; sussurros e assovios; pequenas sortes. Aquele a quem não se deve lamentar. Aquele com quem sequer existir é ficar.
Os diamantes já são o próprio crepúsculo; a se respirar.
Terça-feira, Setembro 30, 2008
Esboço de uma geografia que se quer fantástica; e outros analectos
Era uma vez um brasileiro que falava em português, pensava em inglês e sentia em francês. Mas era tido por si como um argentino que fazia graça em espanhol. Um dia, ao ler Gogol, pensou que poderia ser Truman, o Capote. Escreveu a história de um homem que vivia dentro de uma garrafa arremessada a partir de um bote. Era mais como um Duque em seu domínio que, a sangue frio, matava o tempo em sua travessia de verão, pensando que as musas são ouvidas; e ouvindo-as. As musas, as tinha; divididas.
Quando a árvore da noite chegava, pensava em outras histórias até adormecer e sonhar com o povo dos ratos; com Josefine, a cantora; e que escrevia cartas a Milena. Até aí, quase nenhum problema. Em processo de metamorfose, transmutou-se em um Kafka sem talento. Perdido, medroso, lento. Mesmo sem querer, transformou-se em um artista da fome. Alguém que escreve o que come. E como nada ingere, descreve o vácuo. E quem pelo nada se interessa?! Todos querem a intempérie. Nada que não tenha pressa.
Mas vítima do mundo não queria mais ser. Todos têm o direito de pensar o que bem entender. Inexistir é para quem bem puder e merecer. Sorte de quem se permite. E sorte há que se fazer.
No inexistente descobre um país, o das maravilhas. Lá conhece Carroll e se encanta como Alice. Entre gatos, ovos e coelhos, se perde por reflexos em espelhos; e através deles chega até Borges, que lhe propõe pensar um esboço de geografia fantástica em forma de atlas, e escrever o livro de areia de dentro dos jardins de veredas que se bifurcam. E assim, não mais como, de si, um conjurado, mas transtornado em um Aleph insuflado, resolve dedicar-se de uma vez por todas às ficções; e antevê, do que parecia triste e acabado, um sonho renascer em Homem Fênix montado em um cavalo branco e alado.
Reabrem-se as cortinas, uma chuva de pétalas. Todos aplaudem. Lá fora, já é tarde; e os ventos fortes anunciam uma nova tempestade.
Sábado, Setembro 20, 2008
Excertos das naturezas benditas; e outras desditas
Caminha pela vida como se perder coisas seja o normal. Tem projetos; e seqüelas de invenções malfadadas (as ilusões tomam-lhe por inteiro desde o nascimento). Vive, agora, em tempos de balanço. Há restos que ainda precisa dizer. O mundo passou a um local estranho (ou sempre fora, e percebia-o como se pão com manteiga fosse); a ante-sala da espera para a cirurgia de remoção de idéias. Com revistas contendo felicidades perversas e possibilidades indistintas, irrecusáveis e impossíveis. Suspira breve. Passa a mão pela testa. Depois do passeio matinal, sem sair da cama, imagina-se como um cordeiro vegetal da Tartária invertido. As plantas a crescer e a crescer em seu entorno, e os lobos em franco desprezo. Cortado se mantém inteiro, mas o sumo, sim, a escorrer; em palavras. Assim como quando sonha que é uma árvore que devora os pássaros que fazem ninho em seus galhos; e, com a chegada da primavera, dá frutos em forma de infindáveis melodias. Coisas da natureza. Natureza vadia.
Domingo, Setembro 07, 2008
Casamata
Quarta-feira, Agosto 13, 2008
Desde houve quando tu jamais me quiseste
E assim, subalterno de mim eu me tornava; a cada dia que passava. E assim, assombrado em mim, eu te procurava; em cada olhar, em cada andar, em cada alma que eu beijava. E eu nada pedia. Eu Nova York, eu Praga, eu Cidade Baixa, eu Bahia. Eu Paris, café; eu chegando perto do que eu sempre quis. Eu Tibet, eu Muralha da China; eu Jaguar, eu patrola, eu Corcel, eu Belina. Pulava descalço, pisava em falso, mentia que, sim, tu nem existias. Voltava pra rua, ficava doente, seguia em frente, comia tu crua. E eu no teu tu, e tu no meu eu, a minha na tua. E a chuva não vinha. E eu já molhado, descendo de lado, em mim enroscado. E tu não sei onde, passeio de bonde, do tipo infinito. E eu meia-noite, uma da manhã, vestido de lã, tossindo e fungando, sonhando um grito. Tu: passando de bela, rainha janela, dependurada no pincel, fingindo ser dona da bola e do apito. E eu sabendo de ti quase um mito.
Desaba o céu em rito.
E tu não querendo ser minha bala de guaco com mel; e eu tão teu pirulito.
Quinta-feira, Agosto 07, 2008
Quarta-feira, Agosto 06, 2008
Terça-feira, Agosto 05, 2008
Quinta-feira, Julho 24, 2008
Tango
Lehgau-Z Qarvalho
Sentia-se em um bosque cinzento à margem da rodovia, a respirar cosmopolitices, entre a Avenida 9 de Julio e a Avenida Corrientes. Um vagão subterrâneo, metade carne, metade metal; menor que um átomo e mais comprido que um anel. E tinha a boca fechada e dois dedos em riste, como espadas sem pontas, um de cada lado; e se ocultava nas teclas e assassinava os sentimentos forasteiros e naufragava em suas elucubrações. E viera pelo ar em fumaça; nuvens de Posêidon em território de Zeus querendo ser Hades. E pensava estar destinado ao eterno termo etéreo em Palermo Viejo; comendo a terra; bem na linha divisória entre o Soho e Hollywood; à espera da serpente. E fora gerado lento pela fúria das paixões reprimidas; e transmutado em um Leviatã interior que ninguém, nem mesmo ele, jamais seria capaz de perceber.
Segunda-feira, Julho 14, 2008
(Desacoplagem em ponto zero)
(Inspirado na obra do artista plástico Hélio Fervenza)
Em todos os tempos os dias começam e terminam. Mas nunca terminam porque sempre recomeçam. E as noites são os finais dos dias; e os seus começos. E os seus recomeços. E os seus refinais.
Eu saía sempre perto do mesmo horário. E voltava da mesma forma. E pensava que todas as mulheres eram iguais. E pensava que a vida era dividida, compartimentada. E dizia que nada será como antes; e que todo pensamento é dialético; e que todo amor é hipotético; e que todo dia ela faz sempre tudo igual e acorda às três horas da manhã; e que não me amarro a dinheiro não; e que amigo é coisa para se guardar. Eu saía perto do mesmo horário. Todo dia. E voltava. E que nada, nunca, irá mudar. E saía. E que ela é só ela. E voltava. E saía. E voltava; a constatar.
Um dia, ao passar por uma porta com sensor automático para abrir e fechar, fiquei entre vírgulas. Elas estavam bem ali, grudadas no vidro fumê, as vírgulas. Elas afastavam-se, eu entrava, entre vírgulas. Eu saía, afastavam-se; eu: entre vírgulas. Como um universo em eterna retração e expansão. E eu, entre vírgulas, me vi à espera do Big Bang.
E li que uma galinha, em Cuba, teria posto o maior ovo da história. E que um californiano mantinha o título mundial, pelo segundo ano consecutivo, de campeão dos comedores de cachorro-quente. E que dois pulsares na órbita um do outro dão razão a Einstein. E que eu poderia estar feliz, mas sentindo o contrário.
Passando por um outdoor, desencontrei-me entre parênteses. Tentei virar um ponto de exclamação! Ao pular – um travessão, tinha: dois pontos. E não era um antes e um depois, mas um em cima do outro. Assim como são feitos os bebês. Mas eles não se tocavam: o de baixo quase encostava-se à linha, o outro flutuava. Assim como são feitos os casais. Desafiavam as leis da física. Um avião deixou de sê-lo ao ser anexado a uma carta de amor. E o elegante ponto-e-vírgula; quase em desuso.
Perdi as esperanças, mas logo as recuperei. Um dia sentado, caído, deitado; no outro andei. Puxei meu lenço metafísico e pus para fora o tanto que sempre me resta: escrever uma história no corpo de alguém. Eis a missão. Existem humanos que optam por ser escritores; existem escritores que optam por ser humanos. E eu ali, em outra dimensão.
Ela veio e me disse para parar de voar. Eu ali, pardal joão-de-barro. Ela hospital, doenças, pé no chão, curando os outros. Eu sei. E quem cura a alma?! E a de quem cura?! Vida não é curra. E é. O tempo inteiro. E urra quem quer; desobedece quem precisa. E eu ordeiro; querendo não ser. E eu cordeiro; querendo comer. Alimento em si; uma vontade; louca. (Em todos os tempos os tempos começam e terminam. E as dores são os finais dos tempos; e os seus começos. E os seus refinais. E as suas veias abertas. E os seus corre dores. E os seus recomeços). Cansei, pensei. Fluir, desaguar, investir, inverter, desafogar, sentir, parir, desfronteirizar.
Inverti os parênteses: eu no meio )final de um sem começo; começo de um, outro, sem final(.
Quarta-feira, Julho 02, 2008
De dia, léticos; há noite – pródigos
Tem dias, quando acordo, meus lábios estão secos. As costas doem um pouco. Não tenho vontade de sair da cama; nem de ficar nela. Penso que algum chá me fará bem. Sol também. Chuva talvez. Aguardente. Alguma leveza, maciez. Asfalto. O subterrâneo. Uma visão bem do alto. Um gerânio; rosas em azul cobalto. Nozes; amêndoas em confeito. Um epitáfio. Nem torto; nem direito. Café, pilhas, música, livros; tevê aberta, paracetamol, escapamento, freio a disco.
Tem dias, que acordo, meu espírito a voar solto e desatento por aí, por aqui, por acolá... Nunca estou onde penso estar. Quando resolvo envolver-me comigo mesmo, já parti, já ando a esmo. E corro atrás de mim; sigo meus passos, incessante. E tombo cansado outra vez; como quem quer consigo de fato ter, mas não passa de, em si, mesmo sem querer ser, mero diletante.
Tem dias, de acordo, coloco as vísceras para passear. Falo pausado, bem devagar; não digo nada. Só tudo penso. Pequeno; imenso. Incito a dúvida; permaneço pó. Das duas, uma: viro o recipiente; se estou doente, não sinto dó. Não peço ajuda. De tenho tempo. Em vento a vida. Crio uma outra. Abro em ferida; retiro o que pus. Transformo tudo; remexo um pouco; faço-me luz.
Quinta-feira, Junho 12, 2008
Artificialidades léxicas para uma sobrevida em ré menor
Lehgau-Z Qarvalho
Já não sofre nem se importa com nenhum tipo de preconceito. Seguindo a linha Mark Twain, jamais pergunta de que raça é um homem; basta que seja um ser humano; ninguém pode ser nada pior.
Enquanto isso os generais dos exércitos americanos, derrotados pela inépcia, por tanques fabricados na China, por berros e boatos eletrônicos, por certos mensageiros de bicicleta e, em especial, por alguma paixão perdida em um quarto de hotel barato, marcham rotos pelas ruas poeirentas. Outros, em outra guerra, deixam-se levar por artifícios tipográficos, ou mesmo sintáticos, e sofrem. Pensam que algo aconteceu de fato só porque está impresso em grandes letras pretas; confundem uma possível verdade com o corpo 12; e sem desconfianças mínimas, partem inclementes para o palavrório costumeiro. Carlyle, para não deixar dúvidas quanto às suas influências, informa-o, hoje, de que a democracia é o fruto do desespero da humanidade em não encontrar heróis que a dirijam. Intenta um intraduzível epíteto para o que está sentindo. Fracassa. Carlyle estaria, enfim, certo? A tradução vem em forma de gotas temperadas. Em agosto de 1954 um ditador puxou o gatilho contra si. Para não duvidar da probidade dos próprios sentimentos, elimina a cafeína e o cacau por breves instantes.
O dia é cinza. O fantasma de possessos olhos negros reaparece intenso; no mais das vezes, sentimentos restos; um dia sim, outro também. Os tempos já são mudas, mas há algo ali; algo que não deveria. Toma um pouco de ar com alguma impaciência. Sente que precisa ser seu próprio herói; dita para si. Detona uma seqüência de três acordes maiores, mais um com a sétima, em sua mente, mas não tem coragem de experimentá-los com as mãos; usa-as para cobrir o rosto.
Lembra-se da fábula egípcia contra a escrita, cujo hábito, conforme ela, faz com que descuidemo-nos do exercício da memória e passemos a depender de símbolos. Acredita. Pensa ter encontrado uma pequena saída; aperta os olhos ainda uma vez; e escreve.
Sábado, Junho 07, 2008
Lehgau-Z Qarvalho & Simone - Lívia e os tempos
Quinta-feira, Junho 05, 2008
Lívia e os tempos
Não acreditava em um tempo uniforme. Pensava existirem tempos diversos e paralelos. Em conversas com Lívia, fazia-a crer que em um dos tempos poderiam, eles, encontrarem-se; em outros, não. Em uns, estarem juntos, em perfeito contato e interação; em outros, não. Em uns freqüentarem-se ávidos; em outros se cruzarem eventuais pelas ruas, sem nem ao menos se notarem; em outros, ainda, não. E em alguns sequer existiriam. Ou apenas um, ou apenas outro. Em uns, inclusive, poderiam ir, um, ao funeral do outro. Em outros: um enviar felicitações pela chegada ao mundo do outro. Em outros, não. Em uns poderiam ser arrebatados incontestáveis; em outros, inimigos mortais. Em uns saber-se-iam amantes; em outros, casados; em outros, as duas coisas, porém sem o saberem. Em uns voariam leves, livres, sinceros, perversos; em outros, presos, um, outro, pela mão. Em uns seriam ar, loucos, lépidos, felizes; em outros, chão.
Quarta-feira, Maio 28, 2008
Para além das líquidas ações e dos imaginários horizontes; das microfonias e distorções
(Escrito ao som de "Yo La Tengo – GENIUS + LOVE")
Ela possui a doce propriedade de permanecer na memória. Ponto por ponto; gosto por gosto; cheiro por cheiro. Na sucessão das ruas e das casas por onde jamais passei: portas, janelas, pavimentos; tudo, mesmo sem apresentar particular beleza ou raridade, é de se apaixonar para sempre. Até em suas nuvens, chuvas e tempestades. Tudo. O seu segredo vem do modo, do olhar, do jeito como percorre o todo feito figuras musicais que se sucedem em uma partitura em que não se pode mudar um único rabisco, sob pena de ter-se outra música que não aquela; a dela.
Minha mente não podia mais me levar de volta para casa. Eu podia sentir. Ainda recordo-me de quando saí. Sim, foi minha mente que me levou até lá. Atravessei o país para nunca mais voltar.
É um lugar onde as mulheres possuem lindos dentes, sublimes lábios, cabelos bem tratados e olham nos olhos. Lêem pensamentos; luminosos; o tempo todo. E anseiam por isso.
Eu era um Romeu, e sangrava.
Por lá se caminha em movimentos circulares por entre árvores, cimento, asfalto e areia. Assim é preciso para não molhar os pés.
Um vento gelado a soprar em meus ouvidos, disse-me sussurrante: apenas feche os olhos, filho, e não vai doer quase nada.
E a fadiga que moldava os meus desejos, tomava dos desejos a minha forma. E eu jurava estar me divertindo, quando não passava de um escravo.
Sob olhares mais atentos, dir-se-ia que os futuros não realizados são apenas ramos do passado.
Eu era um Romeu, e sangrava. Mas ninguém notava.
E foi inútil a minha viagem para visitá-la. Obrigada que está a permanecer imóvel e imutável para preservar a própria memorização, a própria identidade, a própria atmosfera – ela definhou, desfez-se, evaporou, sumiu. Desmoronou do alto de si mesma. Fez-se amortecida e quase esquecida por mim.
Atravessei o país para nunca mais voltar.
Reconheci-me. Desvendei demais sobre o que sou, sobre o que desejo ser; descobrindo o muito que não tive, nem nunca terei.
Minha mente não poderá mais me levar de volta para casa. Eu posso sentir em meu cérebro; eu posso experimentar em meus ossos; eu posso ouvir em meus pensamentos; eu posso ler em minha melancolia; eu posso ver em minhas verdades.
Foi minha mente que me levou até lá.
Eu fitava o nada, apoiado em minha xícara de café.
Eu era um Romeu, e sangrava.
Quinta-feira, Maio 15, 2008
O inferno céu da invenção
Eu sou os outros, pensa enquanto espera pelo café e as torradas americanas. Talvez o maldito Schopenhauer tenha razão. Uma estranha música no ar. O que um homem faz é como se todos os homens o fizessem. Alguém se aproxima. Por isso não é injusto que uma desobediência em um jardim contamine a todos. Ela é ruiva. Por isso não é injusto que a crucificação de um único judeu baste para salvar todo o gênero humano. O perfume é suave. Talvez Schopenhauer tenha razão. A boca esculpida em Photoshop. Eu sou os outros. Pernas, seios, testa; tudo em larga vantagem. Qualquer homem é todos os homens. O mais tragipoético dos sorrisos. Shakespeare é de algum modo essa mulher.
Um arquivo alfa-beta-numérico-imagético recolhe as informações de variável veracidade. O café demora. Balança a cabeça. Esfrega os olhos. Ela de algum modo é essa mulher. De algum modo deve ser. De algum modo tem de ser. De algum modo tem de chegar; deve aparecer.
Em uma quinta-feira, por volta das 19 horas, em 1824, nos confins da Escandinávia, o mundo já era, por completo, breu. Uma das meio donzelas aproximar-se-ia do senhor de espessa barba, debruçar-se-ia sobre a mesa da taberna, acenderia a vela enfiada em um gargalo de garrafa e, sorrindo, beijaria sua fronte.
A felicidade, os estados musicais, as mitologias, os tempos em trabalho de parto, certos isso, certos aquilo, crepúsculos em desalinho, pequenos amanheceres, imanências, iminências, desajustes, tipificações em azul cobalto, rezas, orações, agradecimentos; a proximidade de uma revelação que não se produz. Todos os fatos são estéticos. O olho é de um verde quase mar em dia de amena tempestade.
Os primeiros relâmpagos surgem dentro do café caverna. Barulho de chuva no tempo seco. Lembra-se do tal romance que começa no terraço de uma torre de onde se pode ler o firmamento, para terminar em um subterrâneo encantado onde se pode ser o céu. Sente a possibilidade de fusão de todos os matizes esquizofrênicos e recua de imediato. Crê que de dentro de si, a qualquer momento, podem sair todas as metáforas revestidas de suas carantonhas perpendiculares. E nenhuma. “Posso me sentar?”, se permite Ela.
O homem gargalhar-se-ia, pegaria sua donzela por força de vontade pela cintura, daria dois tapas em suas nádegas e a levaria para cima. Os rostos corados. O vinho a regar-lhes os instintos. Os uivos em silêncios perfeitos.
Dos pressentimentos, sempre pôde chegar muito perto de uma certeza: justamente por saber-lhe afeito ao mal, Deus talvez lhe encomendasse uma missão. Até então, seus dias haviam sido de uma simulação inofensiva. Fingia em nada crer porque admitir o sobrenatural seria como negar as maravilhas do cotidiano.
Mas e se Sartre estivesse certo?! Se os outros o inferno fossem?! Como conseqüência, admitindo Schopenhauer, sim, Eu o inferno seria. Assim, acabar com ele, só a Mim competiria. E começar com rimas mal não faria. “Também quero um destes”, em voz de incontida feminilidade ao servirem à mesa a xícara fumegante.
Das inúmeras bênçãos que a literatura pode ministrar, a mais sublime haverá sempre de ser a invenção. Roça-lhe a perna; Ela; por debaixo da mesa.
Das inúmeras bênçãos que a criação pôde ministrar, a mais sublime haverá sempre de ser a mulher. Sente, de ponta a ponta, um arrepio a percorrer-lhe a espinha dorsal.
Coisas acontecem por debaixo dos panos.
O homem e sua barba, então carmim, sairiam estupefatos, ofegantes e vaidosos do catre para a rua.
O hálito é doce.
Ela, ainda na cama deitada, sem nada e lhe cobrir a alvura salpicada de bronze, rir-se-ia. Jamais donzela teria de fato sido; e jamais donzela voltaria a ser.
“Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono – A tempestade (1611 – 1612). Ato IV – Cena I: Próspero”, a voz macia, mexendo e remexendo, Ela, além dos lábios, em seus avassaladores fios de cabelo.
Anota um número de telefone em um guardanapo de papel, deposita-o sobre a mesa, ergue-se e sai.
Sempre chegara às coisas depois de encontrá-las nos livros.
Talvez, lendo, Ela o encontre; ao invés dele a procurar.
Como haveria de ser Ela em outros ambientes? Pensa. Ao vento; ao luar; ao chuveiro. Talvez Schopenhauer tenha razão. Talvez Sartre. Talvez ambos. Talvez Jorge.
A criação nada mais é do que uma mistura daquilo que lemos com o que esquecemos. E quando esquecemos, não mais sabemos. Exceto quando vivemos; ainda que apenas enquanto lemos.
Ela talvez seja os outros; talvez o melhor dos infernos. Ela talvez seja o céu; talvez nem Ela, nenhum eu. Ela talvez seja ele, em seus absurdos desejos de possuí-la. Ela talvez seja rica; a frase perfeita. Ela talvez venha e diga; qualquer coisa, frase feita. Ela esposa de um deus, louco, tarado.
Encontrando-se, andariam lado a lado. Dadas as mãos – Ela linda, perfeita, poesia, segredo de Estado.
Final de expediente, tudo vai sendo fechado.
Um escritor distraído pela vaidade talvez pensasse tê-la de si; para si; só, em si; tê-la inventado.
Terça-feira, Abril 15, 2008
Devorações
Alícia era uma ninfa antes de ser um redemoinho na cabeça de Verter, e não aspirava a mais nada senão sair para a luz do dia. Suas raízes não mais existiam e ela percebia pouco do que se passava ao redor. Quisera assim transformar-se, de certa feita, tornando-se vítima de seus próprios intentos.
Verter observava a rua, de sua janela. À noite os faróis dos carros viravam prateados homenzinhos serviçais. Eles contribuíam na construção de uma casa onde as pessoas se perdessem. Não era para ser um lugar atroz, mas um lugar onde coisas atrozes acontecem. De seu comércio com a noite e as auroras, descobriu que ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. Portanto, estaríamos todos, aqui, a passeio. Ou não. O que pouco importa, então.
Relevante é que cada um cria seus precursores, em sua concepção do passado; assim como há de modificar o futuro. De nós não sairão criaturas mais lúcidas ou mais nobres que nossos melhores momentos, informava aos transeuntes, externos e internos. O conselho para sempre virarem à esquerda o fazia recordar que era esse o procedimento comum para descobrir o pátio central da invenção de Dédalo. Sentia que algo estava por acontecer-lhe, ou estava acontecendo, ou já teria acontecido; e logo com ele, pensava. Sentia. Sofria. Mas refletia que todas as coisas acontecem sempre a um preciso alguém, em um preciso momento. E esse pensamento era, em si, bastante para fazê-lo acabar com as próprias agruras, por vezes, por ele, em muito aumentadas.
Mas há quem diga que os caminhos que aprisionaram Ícaro e seu pai provocam a profusão e a confusão dos sentimentos, exercendo uma espécie de posse sobre o homem ou a mulher que não consegue desvendá-los em sua integralidade. Há quem diga, também, que quando feitos de jardins, e sobre os jardins, trazem menos melancolia às paixões não correspondidas. E há quem diga que tudo não passa de pura ficção.
Melhor seria, talvez, a abordagem de Rabelais, para quem divertimento e aprendizagem não são incompatíveis. Mas, neste caso, temos que esquecimentos podem ser fatais, mesmo quando parte do estratagema. Ingressaram lá porque quiseram. A ninguém podiam culpar. A corda enrodilhada na entrada. Aumento do movimento nas ruas. A construção a agigantar-se. Asterion a salivar.
Verter na janela. A madrugada em secreção.
Séculos antes de séculos; séculos e mais séculos além: e só no presente ocorrem os fatos. Alícia deixou-nos também.
Sábado, Abril 05, 2008
Reentrada
Ao final de cada frase ocultava seu nome para que ele não fosse submetido a operações mágicas. Possuía três medos guardados em um caixinha de fundo atemporal e tampa espelhada. Havia descoberto que Deus não sabe quem é nem o que é. E descobrira nos livros que eles se parecem com pinturas. E descobrira que não há classificação cabível para o universo. E que na Irlanda ou na Escócia (ou nas duas), habitam criaturas que gostam da cor verde, do canto e da música, e que vivem em residências subterrâneas onde aprisionam crianças, homens, cães, pedaços de memórias e rimas que costumam seqüestrar. E que os anjos são feitos com luz, os djins com fogo e os homens com pó. E que também era capaz de atravessar uma parede e se tornar invisível no momento em que quisesse. E que também podia surpreender certos seres em suas conversas sobre acontecimentos futuros e, assim, ajudar magos e adivinhos.
O tempo ao vento.
Ao presenciar as primeiras chuvas de maio, adquire forma humana. Diverte-se ao pisar nas poças; assombra-se com as infinitudes; prova das tâmaras e dos chocolates; toma para si manias alheias.
A lua desta quinta-feira parece outra. Ao entrar no oco do castelo seus anseios são amainados; pela simples razão de que não se sabe o que é o universo. As paredes sem expressão. As pinturas, sim, parecem vivas, mas não respondem palavra alguma às perguntas que vão sendo feitas. Desde o átrio central, a sensação da doce proeminência de uma figura amorfa e potente, feita de algo além da energia e da luz. Porque Deus não é um quê nem um quem. Abre a caixinha. Ser morto, enlouquecer ou deixar-se escravizar viram pequenas invisibilidades. Inspira, respira, transpira, excede. Uma fada aparece enquanto guia. Atenta para o burburinho. Escuta algo parecido com seu nome misturado com o que será. Respostas são hipogrifos que surgem na hora em que desejam se desocultar. Segue em frente sem reservas.
Em tempo, o vento.
Uma bruma densa vai se dissipando. O chão em umidade especular; se já não é mais visto, é porque diáfano está. Esquece o inesquecível; o que foi. Fecha os olhos para o sempre; sorri pela primeira vez.
Sábado, Março 29, 2008
Fuga de outono
Pensava em inventar um planeta. Um para onde pudesse ir sem deixar vestígios. Sabia que morrer é só não ser visto. Lera. E sabia, também, que só ser visto não é viver. Sentira. Sabia que tudo que lhe restava era nada mais restar. E sabia que tudo se dividia enquanto um resto, na pia, por completo, se ia. Sabia. Que não saber, também, parte do saber fazia, sabia. E inventava ser. Intentava compreender por que viver tinha de ser uma agonia. Não era. Não via.
Odiou-se minucioso: sua identidade, suas necessidades físicas, seus vícios animais, sua apatia. Odiou sempre, tudo, uma vez por dia. Caminhava sedento atrás de algo. Clamava; esse algo não ouvia. Sabia que o universo é de algum modo um cosmos, uma ordem. Ou pode ser um erro, ou uma ficção de um conhecimento parcial. Sabia que talvez tudo fosse muito mais difícil. De que valeria?! Ou tão genial quanto o que em um instante, de repente, se vê, e antes não se via. Gritava; ninguém respondia.
E escrevia. Jazia prosa em melodia. Poesia?! Não interessava, nem sabia. Vertia.
Até que o momento chegou. Olhou a si como quem olha a outrem; posicionou-se entre o mal e o bem; cuspiu para o lado para não dar nada errado.
Pensou mesmo se ia; se era em si, dó, algo em sol, ou de si breve alegoria, mesmo se mínima consistia.
Abandonou a idéia do planeta. Dos modos de existir, entendeu que etéreo seria ideal; Posicionou-se, então, entre o extraordinário e o banal; e transformou-se em uma nota musical.



















